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  • Andreia Lopes



Pai,

lembraste de mim em criança? Tinha o cabelo cor de boi (como os meus tios) e usava umas sapatilhas gastas de andar por casa por cima de umas meias brancas com riscas que viraram trending. Trepava aos móveis para ir buscar as bolas que a minha mãe teimava em esconder em sítios que nunca foram suficientemente altos para mim. Corria para a rua com a bola debaixo do braço.

Pai, lembraste que fazia cabanas e me escondia dos ralhetes entre as rochas do monte por trás de nossa casa?

Lembraste da primeira bicicleta que te pedi? Era Domingo quando a compramos. Era colorida e tinha rodinhas. Haverias de me comprar outra de montanha que aprendi a andar sozinha, com menos de seis anos. Mal chegava aos pedais. Subi-a ao muro para subir para a bicicleta. Tentei. Uma e outra vez. Consegui. Rapidamente me viste descer a ribanceira de casa praticamente sem travar.

E o skate? Lembraste pai? Também aprendi a nadar sozinha. E andar de mota. E de carro. Sempre confiaste em mim. E com as devidas reservas até te orgulhavas da maria-rapaz que se entretinha a apanhar as rãs do rio.

Pai, não sei onde anda essa miúda de cabelo cor de boi e coragem nos olhos. Levaste-a pela mão quando foste embora.

Já não subo a muros, nem desço ribanceiras. Qualquer lugar é demasiado alto para mim. As patas das rãs far-me-iam impressão. Tenho medo. Já não tenho coragem nos olhos.

Talvez, a culpa até seja tua, que desapareceste. Nunca mais me pude aninhar em ninguém. Perdi os braços que me levaram pela mão. Perdi os olhos azuis de orgulho que me viram sempre menina.

Pai, lembraste quando te escrevia? E te lia enquanto desfazias a barba...

  • Andreia Lopes


Domingo foi mais um dia da mãe. E não fossem as compras matinais nem me tinha vestido. Passei o dia doente, do corpo. E, às tantas, já padecia da alma também.

Sucessivos dias de bad hair e bad belly a juntar ao branco defunto das pernas resultam numa maleita que nem com injecção de pinicilina lá vai.

O post do homem do dia da mãe foi a 299, com a goPro ao contrário, na auto-estrada, que era mais ou menos como eu me sentia. Ao contrário. Ainda expectei uma foto onde estivesse linda a carregar as crias com uma declaração ao maravilhoso ser que sou capaz das melhores habilidades maternais e conjugais, mas não saiu. Nem o dele, nem o meu. Valeu-me o story de dois segundos da mais velha onde apareço com filtro a dizer que sou a melhor quando todos os dias me diz o contrário.

Repete-se a ladainha, as mães imaculadas do instagram, loiras, magras com dentes brancos a bendizerem aquele que é o papel das suas vidas: serem mãezinhas! Por isso, é que cada vez elogio mais a verdade de algumas mulheres despudoradas em assumirem plataformas reais de mulheres e bebés de verdade. De barrigas que chegam a tapar as vaginas, de mamas que caem até ao umbigo, de rabos que abanam, de bebés que incomodam.

Ora, vamos lá saber algumas verdades dolorosas:

1 - 98% das mães já fizeram sexo em frente ao bebé.

2 - 100% finge necessidades fisiológicas enquanto se tranca na casa de banho para desfrutar de breves momentos de silêncio.

3 - 85% das mães já lavou a chupeta que caiu com a sua própria boca (desconfia-se que as 15% que responderam que não estejam a mentir).

4 - 98% admite que houve dias em que não deu banho ao bebé. Usou apenas uma toalhita na zona íntima.

5 - 50% reconhece que usa fraldas de marca branca (as outras 50% são influenciers e a Dodot oferece as fraldas).

6 - 80% já deixou os bebés nos avós com a desculpa de ir trabalhar quando na verdade foi para a galderice com as amigas. As restantes 20% botaram-lhes brufen na goela e levaram-nos para o colégio. A seguir fingiram espanto quando ligaram a informar que o bichinho tinha febre.

7 - 90% reconheceu que já saiu de casa sem chapéu.

8 - 87% passou oito horas sem mudar a fralda. 13% justifica que tal só aconteceu porque estava com uma crise de sinusite.

9 - 60% já deu iogurte ao jantar em vez de sopa. As restantes 40% foram a correr comprar uma Bimby.

10 - as mesmas 60% da observação anterior fizeram papa com leite de vaca antes dos 12 meses.


A boa notícia é que todas estas mães são, ainda assim, as melhores do mundo.






  • Andreia Lopes




Tenho, na minha secretária, uma garrafa de água de 1.5 litros. Nem metade bebi desde de manhã.

O meu cabelo tem um apanhado manhoso, daqueles mesmo mal feitos que significam desleixo. Estou com uma fome do caralho. E apesar de ter bebido pouquíssima água, a minha bexiga, que é do tamanho de uma ervilha, está prestes a transbordar.

Tenho tanta saudade de ser magra. Escanzelada. Cadavérica. Sequinha como o meu Jack. De caber num 32. De não ter mamas...

Ao almoço tive de explicar à minha filha do meio o que é um mamute. Como os bichos já não existem, o mais semelhante que encontrei fui eu. Os mamutes são tipo a mãe, mas sem pêlos e sem os cornos (assim espero).

Hoje voltei a treinar. E foi humilhante. Imaginem um mamute a fazer um circuito de treino de alto rendimento, tipo saltar para uma caixa, fazer agachamentos, abdominais... não é uma coisa gira de se ver, pois não, mais depressa optam por visualizar o vídeo infantil da Maria Leal.

Mas, ao menos sou um mamute daqueles bem fodidos, com força de vontade, seguro do seu objectivo, um mamute que quando chegar ao Verão vai banhar-se num maravilhoso biquini tamanho S.

Era só isso. Para aumentar a pressão da informação pública. Sintam-se à vontade para cobrar resultados.


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